sábado, 8 de fevereiro de 2014

Meu euzim

Dizem que já nascemos assim, outros dizem que é adquirido, alguns afirmam que é obra "do capeta". Se eu nasci ou adquiri, eu não sei. Mas uma coisa eu garanto: Obra do "coisa ruim"? Ahhh!! Não é não!!
Cresci em Timbaúba, pernambuco. Venho de uma família não muito convencional e por razões que pouco importam no momento, sou filho de pais separados, criado por vó materna, minha voinha. Vivi minha infância e adolescência aprendendo e reforçando meu caráter através da Bíblia. Não me arrependo de nenhum momento que vivi na igreja, pois sei que cada ensinamento ministrado na Adventista da Promessa me adicionou valores que carrego comigo até a morte. Mas confesso que teve momentos que quase enlouqueci. É muito complicado se reconhecer homossexual em um ambiente onde tudo que você é aos olhos dos outros é errado ou demoníaco.
O medo é o maior inimigo do ser humano. Ele nos deixa inertes ao que a vida proporciona. E o meu maior desespero era saber quem eu era e negar isso dentro de mim com medo de mostrar isso as outras pessoas.
Nunca fui muito de curtir coisas de “menino tradicional”. Brincava de bola de gude, pião, pipa, corria atrás de tanajura, mas adorava pular corda, jogar baleado, vôlei, pintura, elástico, e lembro-me que algumas vizinhas se reuniam na frente da minha casa e trocavam papel de carta. Eu achava aquilo incrível, mas quando sonhei em pedir à minha vó para comprar, fui bombardeado com um: “isso não é coisa de menino”. Fui crescendo e sendo formatado a ser aquilo que era certo, o “menino tradicional”.
Sempre fui franzino, magrinho, o mais frágil de qualquer turma e por essa razão, tudo que os meninos da minha idade faziam me trazia medo, pois não queria me machucar. Enquanto eles pulavam, jogavam bola, lutavam entre si, eu me divertia em aventuras com as meninas. Nunca fui de brincar de boneca, aquilo pra mim já era demais. Talvez pensasse assim pelo efeito da formatação que me moldaram. Mas, adorava conversar com elas, brincar com elas, parecia mais fácil, mais acessível. Tive amiguinhos meninos também, carrego algumas dessas amizades até hoje, mas nossa convivência, brincadeiras e interesses sempre foram bem diferentes. Lembro que sempre tentei me enquadrar na turma dos meninos, mas eu sempre me sentia estranho, diferente. Mesmo não entendo o que acontecia, eu já sabia que eu não era igual aos outros meninos.
Abrir hoje a caixa de lembranças da minha infância me tira sorrisos e certezas de que “estava na cara” de que eu não iria ser um “menino tradicional”. 

(Texto escrito em 8/fevereiro/2014)

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